Do amor

Falo do amor por ser força vital, essencial aos movimentos de vida que podem proporcionar o bem estar às pessoas e à vida como consciência e prática individual no cuidado de si, do outro e do meio ambiente. O amor vem e proporciona um estado criativo para que as posturas do indivíduo frente ao cotidiano sejam levados pela pureza primitiva e instintiva de um estado saudável de relacionamento em todos os níveis, de forma a que uma construção seja feita e que se apurem os sensos de filtragem das relações entoxicadas pelas diversas formas de opressão do ser humano, onde se inclui o medo como resultado imediato, gerando intolerância e incapacidade de discernimento – principalmente frente à pletora de informações desencontradas, neste mundo que explode pela comunicação gerada por estímulo ao poder e à competitividade, em direção à produção e ao consumo, de formas bestiais, bárbaras.

A humanidade ficou individualizada pelo medo de amar. Isto retroage no ser, tornando-o mais incapaz de reconhecer seus próprios sentimentos e assim também não reconhece o outro, o que torna uma impossibilidade a efetiva construção de algo para a qualidade de vida neste mundo contemporâneo.

Trazer o amor à tona, em um tempo de desgaste da palavra, como trauma instalado na cultura, por diversos revezes – talvez devido ao sonho de ser objetivamente relacionado às relações afetivas praticadas em torno do sexo e do casamento – fez imperar o rompimento de castelos de crenças impossíveis de serem toleradas pelo ser humano – os clãs tradicionais, movidos à subserviência e intolerância, explodiram e traumatizaram todas as gerações do contemporâneo, a mudança de paradigmas – em sua grande e inevitável complexidade, também em torno das relações sociais. Inevitavelmente, o amor entendido como algo a ser praticado entre duas pessoas, num tempo de vivência das diversidades de interesses, de práticas de trabalho opressoras e incapacitadoras dos crescimentos individuais (o que se dirá a dois?) – ou mesmo, no grande formato em que o ser atua – gerando a rapidez das vivências (sem aprofundamento, necessário ao reconhecimento do que cada um está querendo dizer em sua peculiar realidade, tudo cada vez mais rápido e superficial) – acabando por afastar o ser humano de seu bem maior, que seria o seu próprio (re)conhecimento e crescimento através das experiências mais aprofundadas com o(s) outro(s); de forma a que esta diversidade de complexos individuais venha a ser reconhecido além dos estereótipos culturais praticados pelos meios de comunicação, pela produção de bens, pela gestão do tempo, pela incapacidade de reconhecimento das reais afinidades, pelas diversas formas de intolerância, desestimulando completamente à entrega às tantas e tamanhas possíveis vivências, que tamanhos frutos trariam. potencialmente.

A não prioridade ao amor, como elemento para a assertividade nas posturas, define tão somente o jogo de interesses obscuros, como um negócio. Entra-se em contato com pessoas que podem promover algum bem estar material, tudo voltado a interesses objetivos e não exatamente esclarecidos – em total desprezo à grandeza existencial e pessoal contida nestas relações. Desta forma, no tempo em que se diz que até o dia perdeu oito horas (de suas vinte e quatro horas), a qualidade de vida individual chega a níveis caóticos, de forma completamente isolada. O ser humano sofre, mundialmente, do grande mal da depressão, de dores crônicas e tantos outro males letais, devido à incapacidade de se exercer como indivíduo integralmente, desdenhando as necessidades do corpo e da alma, indiscutivelmente movidas pelos sentidos, como o toque, o tato, o olhar, e os demais, sem falar da troca energética que é proporcionada quando seus posicionamentos se dirigem pelo privilégio à grande experiência radicalmente humana.

Tal desdém é completamente explicado pelas tais “forças invisíveis” que controlam o mundo de forma não tão subtextual, embora sem um foco de identificação destes poderes, mas ainda distante da compreensão e exercício de posicionamentos possíveis, mais saudáveis, para uma grandeza admissível para o que a vida pode ser. Não estou falando de utopia, mas de consciência e prática diante da sensibilização própria – e disseminação desta sensibilização – de forma a um exercício cada vez mais apropriado das capacidades humanas, retirando o isolamento compulsório do cotidiano de tantas pessoas oprimidas pelas manipulações inescrupulosas em vários formatos de poder, passando pela família, pela educação e pelas diversas instituições que, invariavelmente, o ser haverá de se inserir em sua jornada – haverá de primeiro representar as regras destas instituições que formatam adequações para o convívio, gerando distorções indizíveis nos comportamentos éticos e morais – resultado = doença!

As doenças causadas pela ausência de amor são diversas (simples ou complexas, mas não reconhecidas pela sociedade, senão como uma fraqueza) e as pessoas adoecidas são consideradas um estorvo a ser radicalmente evitado pelo grande social, pela cultura do individualismo mesclado às premissas da globalização de crenças de outras culturas, onde o mito da felicidade recai por um sutil afastamento da sensibilização a respeito da realidade como se mostra.

Assim, a pobreza, razão da violência instalada neste país, é um dos exemplos mais claros desta dessensibilização do ser humano contemporâneo, tão rico de informações e tão empobrecido do bom senso que poderia trazê-lo a ver que sua atuação no mundo é essencial para que a pobreza geral seja pouco a pouco transformada em riquezas dos poderosos e uma ilusão para a classe intermediária destes poderes, que seriam capazes de participar ativamente e produtivamente para o mundo que de fato particpa – pois estamos falando de uma questão cultural, cuja revolução por este mecanismo chamado amor é uma ação política de responsabilidade individual, de grupo, social e do próprio governo – este tão adoentado em suas premissas racionalizadas pelas visões de um poder que pouco privilegiam realmente o bem-estar social, mas o interesse específico de grupos econômicos e políticos. O Estado tornou-se uma indústria de compras de votos para as questões decisivas dos interesses obscuros dos privilegiados, negando o bem estar social geral. E o empobrecimento das classes mais baixas é cada vez mais arraigado. As camadas intermediárias continuam em sua fantasia de que suprindo suas necessidades básicas e também “supérfluas”, combate a pobreza com ira e violência, protegendo-se desta.

Embora sempre acreditando na evolução, vejo os descaminhos da humanidade. É lamentável que um país de tradição tão calorosa e apaixonada, tenha se cultivado no pior das culturas de produção econômica como prioridade – de tantas formas inevitável – e que mesmo aqueles mais sensíveis, os artistas (como se supõe), que trouxeram tanto a bandeira da dignidade tenham se calado (forçosa ou voluntariamente) frente à necessidade imperiosa de tratar o amor como referencial primeiro para suas obras – perventendo o tema, utilizando-o como mercadoria com certeza de venda – , enquanto se arriscaram em suas vidas, numa época de abatedouro indiscriminado às possibilidades de exposição de uma finalidade tão grandiosa como a dignidade do povo. Tornaram-se entretenimento e se findaram à manutenção dos status referenciais adquirido em seu tempo, como se tivessem excluído da realidade. Poucos são os que têm atividade e obra direcionada a este caminho tão necessário, infelizmente.

Exponho minha completa ingenuidade ao assustar-me tanto pela tradição destes abatedouros, como o estabelecimento de uma “nova ordem social” que cala, sem escrúpulos, tantos que poderiam estar atuantes no “engajamento amoroso” por uma vida digna mais completa. Ao avesso da ingenuidade que expus, vejo tantos interesses econômicos expostos, como fraturas, como estas fraturas expostas expressam tamanha redução de visão de que o bem estar mais amplo poderia gerar um Estado exemplar, como se pretende postar internacionalmente – e fora o âmbito dos índices que apontam o Brasil como sexta economia mundial, esqueço dos índices para atentar que a “nova ordem social” pode ser bem melhor tratada que a forma como vem sendo comandada “não sei por quem”.

A globalização se introduz como vírus e traz novas formas frívolas de atuação entre as pessoas, que obedecem cegamente aos comandos.

O amor romântico nada mais é que a extensão frustrada pela incapacidade de operar-se no cuidado cotidiano da vida individual, de postar-se conscientemente frente à vida e praticar com zelo o cuidado mais extenso a todas as instâncias. O amor romântico não existe se está lacrado na instância que chamam lar. Este é tão somente um pequeno invólucro onde os seres se combatem, e com o mundo, tentando as pequenas proteções, derivadas do medo, da ilusão de segurança de suas subsistências, como se isso lhes garantisse o próximo trabalho, o próximo emprego, e que estes viesse, a transparecer uma segurança maior, o que é pura ilusão – enquanto se vê que o critério da criatividade produtiva e seus resultados financeiros são os norteadores para a manutenção de um trabalho. Como se pode preservar a criatividade sem que haja uma constituição firme deste amor?

A consciência e prática objetiva do amor é uma exigência de reconhecimento da necessida que é da vida contemporânea e do planeta, na “pequena forma do ser”, pelas províncias, pelas cidades e metrópoles, pelos países. E que se valham disso aqueles que conseguem se mirar no espelho.

O amor é um trabalho de formiguinha para contaminar o grande planeta.

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